Resenha: Õ Blesq Blom – TITÃS

O melhor álbum dos anos 80 do rock nacional, tanto em produção, criatividade e variedade de estilos, com uma banda no auge técnico de seus músicos e com a produção do “Midas” do rock nacional, Liminha.

Este disco marca o final da fase áurea da banda, que só foi voltar a ganhar prestígio anos depois, com o multiplatinado “Acústico MTV”, um disco de releituras dos clássicos da banda. “Õ Blesq Blow” é uma produção ousada, com o uso do que havia de mais modernos em estúdio, explorando diversas influências e com isso levou o rock brazuca a um nível mais alto de padrão.

Durante a produção do disco, vários artistas foram visitar os TITÃS e ficaram estupefatos tanto com o som que estava sendo criado, como pela forma que a tecnologia estava sendo utilizada pela banda.

O disco começa com a “Introdução por Mauro e Quitéria”, um casal que vivia em Recife cantando melodias pela praia num dialeto inventado por eles, fascinando os TITÃS que gravaram suas “indiomas” (maneira que o casal chamava suas canções próprias) para fazer as músicas iniciais e finais do disco. O casal também caiu na estrada com a banda fazendo parte da turnê de divulgação do disco.

A segunda música é “Miséria”, cheia de teclados e samplers, um semi reggae, com a primeira divisão de vocais da banda: Paulo Miklos e Sérgio Britto cantam. A letra fala das diferenças entre a miséria e o resto que a cerca: “miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”. Uma das melhores composições dos TITÃS, junto com “Comida” do disco “Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas”.

Na sequencia vem “Rácio Símio”, que era pra ser o nome do disco mas acabou perdendo para “Õ Blesq Blom”. A letra fala de afirmações óbvias, mas que nem sempre são percebidas, como “ninguém joga dominó sozinho” e de antagonismos que se completam como “o anão tem um carro de rodas gigantes”, “os cavalheiros podem jogar damas”, uma sacada genial. A música é conduzida pelo baixo de Nando Reis, pulsante, junto com uma batida sampler, entremeados pelas guitarras e teclados.

A próxima canção é “O Camelo e o Dromedário”, um reggae com pitadas psicodélicas e uma letra que faz a comparação entre os dois animais do título da música. No livro “A Vida Até Parece Uma Festa”, Paulo Miklos disse que as comparações foram feitas sem qualquer tipo de comprovação científica. Nando Reis, certa vez em entrevista para a Folha de SP disse que se trata do maior tiro n’água dos Titãs, pois apostavam que seria um mega hit e música naufragou.

Palavras” é a quarta música do álbum, um rock com uma levada mais ska, sem muita frescura, com uma letra muito criativa que falam sobre as palavras, seus significados e uso. O destaque é bateria direta de Charles Gavin.

A música seguinte é “Medo”, cantada aos gritos por Arnaldo Antunes. Ponto altíssimo do álbum, com uma letra sensacional falando sobre os medos que nos travam em diversos momentos da vida. Um rock rasgado, guiado pelas guitarras de Tony Belloto e Marcelo Fromer. Pra ouvir no volume máximo!

A próxima é “Natureza Morta”, uma introdução de menos de 20 segundos preparando o clima para a melhor música do álbum.

A oitava faixa é “Flores”, o melhor riff de guitarra brasileiro gravado nos anos 80. Seu clipe foi premiado pela MTV como Melhor Clipe do Ano nos EUA. Trata-se de um rock onde guitarra e violão fazem a levada, com Branco Mello cantando as agruras de uma pessoa em seu caixão repleto de flores.

O Pulso” vem na sequencia, mantendo o assunto sobre dores e sofrimentos, mas desta vez falando das doenças do corpo e da mente. A voz de Arnaldo Antunes aqui é o fio condutor deste rock sombrio e minimalista.

A música seguinte é “32 Dentes”, um rock simples e direto que fala sobre não confiar nos adultos. A música tem uma levada country, mas que vai num crescente até se tornar um rock vigoroso, especialmente em seu final.

Seguindo a lista chega a hora de “Faculdade”, cantada por Nando Reis e conduzida pela levada de baixo. A letra tem ótimas sacadas com as palavras que tem vários usos, como utilidade e sociedade, e com palavras que são pedaços de outras palavras.

A última música é “Deus e o Diabo”, mais uma vez como dueto de vozes Miklos/Britto, contando as diferenças entre Deus e o Diabo, segundo a visão titânica. Repleta de samplers, é outro ponto altíssimo do álbum, tendo sido executada exaustivamente nas rádios.

E finaliza o álbum a “Vinheta Final por Mauro e Quitéria”, mais uma “indioma” dos recifenses que encerra o disco mais importante dos anos 80.

Se comparado ao “Cabeça Dinossauro”, disco que alçou os TITÃS ao estrelado, “Õ Blesq Blom” mostra uma banda mais madura, consciente dos recursos de gravação para o disco, disposta a usar a diversidade como arma. É possível se fazer a comparação deste disco com o “Sgt. Peppers” dos BEATLES, pensando nas carreiras das bandas e o que impacto que teve ao seu tempo, pois depois da bolacha brazuca, virou febre o uso de samplers nas gravações seguintes. Isso mostra sua influencia, força e poder e o porquê de ser considerado o melhor álbum de rock nacional dos anos 80.

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